Heidegger – a razão é inimiga do pensamento

“Thinking does not begin until we have come to know that the reason that has been extolled for centuries is the most stubborn adversary of thinking.”

 

Heidegger, “OFF THE BEATEN TRACK” (p. 199)

Anúncios

Heidegger – a episteme é deficiente

Por conseguinte, posto que episteme não pode ela mesma demonstrar aquilo que ela pressupõe, a aletheuein da episteme é deficiente. É mal-provida para exibir entes como tal, assim como não descerra o arche. Portanto, episteme não é o beltiste hexis [melhor hábito] da aletheuein. Mais seria a sophia, que é a mais alta possibilidade do epistemonikon.

[…] Assim episteme é um aletheuein que não faz entes, e especificamente os sempiternos entes, genuinamente disponíveis. Para episteme, estes entes estão precisamente ainda ocultos nos archai [princípios].

Heidegger, “O Sofista” (p. 37-38)

Ortega y Gasset – o imperialismo das ciências

“[…] durante o século XIX, todas as ciências exerceram o mais atrevido imperialismo. Era este o modo vital que inspirou a toda essa época em todas as ordens. E como um povo pugnava por imperar aos demais e uma arte às outras artes e uma classe social às restantes, quase não houve ciência que não fizesse sua campanha imperialista, obstinando-se em capitanear as demais, talvez reformá-las radicalmente. Durante uma temporada tudo quis ser física; depois tudo quis ser história; mais tarde tudo se converteu em biologia; em seguida todas as ciências aspiraram a ser matemáticas e gozar os benefícios do axiomatismo.”

Ortega y Gasset, “Meditação da Técnica” (p. 101)

Heidegger – sobre a “essência” do agir

De há muito que ainda não se pensa, com bastante decisão, a Essência (Wesen) do agir. Só se conhece o agir como a produção de um efeito, cuja efetividade (Wirklichkeit) se avalia por sua utilidade. A Essência do agir, no entanto, está em con-sumar (Voll-bringen). Con-sumar quer dizer: conduzir uma coisa ao sumo, à plenitude de sua Essência. Levá-la a essa plenitude, producere.

Por isso, em sentido próprio, só pode ser con-sumado o que já é. Ora, o que é, antes de tudo, é o Ser. O pensamento con-suma a referência do Ser à Essência do homem. Não a produz nem a efetua. O pensamento apenas a restitui ao Ser, como algo que lhe foi entregue pelo próprio Ser. Essa restituição consiste em que, no pensamento, o Ser se torna linguagem (zur Sprache kommen). A linguagem é a morada do Ser. Em sua habitação (Behausung) mora o homem. Os pensadores e poetas lhe servem de vigias. Sua vigília é con-sumar a manifestação do Ser, porquanto, por seu dizer, a tornam linguagem e a conservam na linguagem.

Heidegger, “Carta sobre o Humanismo” (p.1)

 

Hilário Franco Júnior – o menosprezo Iluminista à Idade Média

“O século XVIII, antiaristocrático e anticlerical, acentuou o menosprezo à Idade Média, vista como momento áureo da nobreza e do clero. A filosofia da época, chamada de iluminista por se guiar pela luz da Razão, censurava sobretudo a forte religiosidade medieval, o pouco apego da Idade Média a um estrito racionalismo e o peso político de que a Igreja então desfrutara. Sintetizando tais críticas, Denis Diderot (1713-1784) afirmava que “sem religião seríamos um pouco mais felizes”. Para o marquês de Condorcet (1743-1794), a humanidade sempre marchou em direção ao progresso, com exceção do período no qual predominou o cristianismo, isto é, a Idade Média. Para Voltaire (1694-1778), os papas eram símbolos do fanatismo e do atraso daquela fase histórica, por isso afirmava, irônico, que “é uma prova da divindade de seus caracteres terem subsistido a tantos crimes”. A posição daquele pensador sobre a Idade Média poderia ser sintetizada pelo tratamento que dispensava à Igreja: ‘a Infame’”.

FRANCO JÚNIOR, “Idade Média: nascimento do Ocidente“, p. 10-11

Ortega y Gasset – quem decide é o nosso caráter

jose-ortega-y-gasset“Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que de nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente predeterminada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, nos força… a eleger. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir. 

É, pois, falso dizer que na vida “decidem as circunstâncias”. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter.”

Ortega y Gasset, “Rebelião das Massas” (p.90)

Heidegger – primavera

The spring is the abrupt entry into the realm from which man and Being have already reached each other in their active nature, since both are mutually appropriated, extended as a gift, one to the other. Only the entry into the realm of this mutual appropriation determines and defines the experience of thinking.

What a curious leap, presumably yielding us the insight that we do not reside sufficiently as yet where in reality we already are. Where are we? In what constellation of Being and man?

Heidegger, “The Principe of Identity”