Agamben – Deus não morreu

“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro […] O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.”

Giorgio Agamben

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Marx – homem e natureza

“Man lives on nature – means that nature is his body, with which he must remain in continuous interchange if he is not to die. That man’s physical and spiritual life is linked to nature means simply that nature is linked to itself, for man is a part of nature.”

Karl Marx, “The Economic and Philosophical Manuscripts of 1844”

A investigação filosófica

“[…] philosophy has no authority to judge the validity of specific scientific theories. But any such theory is constructed and tested in ways which presuppose the validity of certain assumptions about the domain under investigation, assumptions that it can consequently neither justify nor undermine, and which therefore require a very different type of examination. The scientist may well be the best exponent of the practices of inductive reasoning as applied to the realm of nature; but if questions are raised about the precise structure of inductive reasoning and its ultimate justification as a mode of discovering truth, then the abilities of the philosopher come into play.”

Mulhall, Stephen. “Heidegger and Being and time”

Heidegger – o Dasein não “têm” propriedades, estas são apenas modos de “ser”

Heidegger descarta qualquer denominação do homem enquanto ser “racional”. Dizer que o homem é um “animal racional” é colocá-lo no mesmo nível de um ser-simplesmente-dado (present-at-hand: uma árvore, uma mesa, uma casa), pois atribuí-se uma “propriedade” ao Dasein. “Coisas” cujo “modo” de ser é simplesmente-dado precisam, para ser algo existente, de um “o-que”. Já o Dasein, enquanto única entidade cujo “ser” é uma questão, não.

“The essence of Dasein lies in its existence. Accordingly those characteristics which can be exhibited in this entity are not ‘properties’ present-at-hand of some entity which ‘looks’ so and so and is itself present-at-hand; they are in each case possible ways for it to be, and no more than that. All the Being-as-it-is [So-sein] which this entity possesses is primarily Being. So when we designate this entity with the term ‘Dasein’, we are expressing not its “what” (as if it were a table, house or tree) but its Being.”

Heidegger, “Being and time” (SZ, 42)

Heidegger – a história de Tales

«Conta-se, acerca de Tales, que teria caído num poço quando se ocupava com a esfera celeste e olhava para cima. Acerca disto, uma criada trácia, espirituosa e bonita, ter-se-ia rido e dito que ele queria, com tanta paixão, ser sabedor das coisas do céu, que lhe permaneciam escondidas as que se encontravam diante do seu nariz e sob os seus pés.»

Platão acrescentou ao relato desta história, a seguinte afirmação:

«O mesmo escárnio aplica-se a todos os que se ocupam da filosofia.»

A questão «que é uma coisa?» deve determinar-se como uma daquelas de que as criadas se riem. E uma verdadeira criada deve ter sempre qualquer coisa de que se possa rir.

De súbito, com a caracterização da questão acerca do que é uma coisa, aproximamo-nos do que seja a atitude própria da filosofia, que levanta uma tal questão. Filosofia é aquele modo de pensar, com o qual, essencialmente, nada se pode começar e acerca do qual as criadas necessariamente se riem.

Esta determinação conceptual da filosofia não é uma mera brincadeira, mas deve ser meditada. Oportunamente, faremos bem em nos recordarmos de que, no decurso do nosso trajeto, talvez nos aconteça cair num poço, de que não consigamos, durante muito tempo, encontrar o fundo.”

 

Heidegger, “O que é uma coisa?”

Raffoul – o fim do “sujeito”

This destitution of the subject would appear to be so radical – even excessive to some  – that they seem justified in condemning its aporetic or morally dangerous character (since, as we often read, the “absence” of the subject in Heidegger’s work makes ethics as such impossible).

Francois Raffoul, “Heidegger and the Subject”

Rüdiger – o duplo esquecimento do ser

A obra [Ser e Tempo], de muita eficácia na sua dramaturgia, começa com uma espécie de prólogo no céu. Aparece Platão. Cita-se um trecho do diálogo Sofistas: “Pois obviamente há muito estais familiarizados com o que na verdade eu quis dizer usando a expressão ente (seiend): nós pensávamos um dia tê-la compreendido, agora porém estamos embaraçados”.

Esse embaraço, diz Heidegger, ainda existe, mas não o admitimos a nós mesmos. Ainda não sabemos o que pensamos ao dizer que algo é ente. O prólogo queixa-se contra um duplo esquecimento do ser. Esquecemos o que é ser e também esquecemos esse esquecer. E assim trata-se de renovar a indagação pelo sentido do ser; mas como esquecemos o esquecer, trata-se sobretudo de despertar de novo a compreensão para o sentido dessa pergunta.

Como convém a um prólogo, já no início alude-se ao ponto para onde tudo isso converge: a interpretação do tempo como o horizonte possível de qualquer compreensão do ser. O sentido do ser é tempo. Está revelado o tema, mas para torná-lo compreensível Heidegger não precisará apenas de todo esse livro, e sim do resto de sua vida.

Rüdiger Safranski, “Heidegger, um mestre da Alemanha”