Heidegger – a filosofia

[…] a “filosofia” não é uma mera ocupação profissional do pensamento com conceitos gerais, à qual alguém pudesse se dedicar ou também não, sem que com isso se desse e acontecesse qualquer coisa de essencial. Filosofia é o estar interpelado e desafiado pelo próprio ser. A filosofia já é em si mesma o modo fundamental de ser em que o homem no meio dos entes se comporta e atém ao ser. Os despossuídos e destituídos da filosofia são os “desprovidos de visão e per-cepção”. Eles se entregam e abandonam ao que a cada instante aparece e com igual velocidade também desaparece. Acham-se dedicados ao esvair-se e encobrir-se do ente, do que é e está sendo. Bebem além da medida da água do rio “Sem-cuidado”. São os descuidados, que se sentem bem na ausência de pensamento, que se esquivaram a todo apelo dos pensadores. Esses descuidados são aqueles que se alegram por terem deixado para trás e abandonado todo cuidado de pertencerem a um povo de poetas e pensadores. (Nos últimos dias foi anunciado e proclamado pelo ministério da propaganda que, de agora em diante, os alemães já não necessitam de “pensadores e poetas”, mas de “trigo e óleo”.)

Heidegger, “Parmênides”

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Heidegger – information is not knowledge

But to know means to be able to stand in the truth. Truth is the openness of beings. To know is accordingly to be able to stand in the openness of beings, to stand up to it. Merely to have information, however wide-ranging it may be, is not to know. Even if this information is focused on what is practically most important through courses of study and examination requirements, it is not knowledge. Even if this information, cut back to the most compelling needs, is “close to life:’ its possession is not knowledge. One who carries such information around with him and has added a few practical tricks to it will still be at a loss and will necessarily bungle in the face of real reality, which is always different from what the philistine understands by closeness to life and closeness to reality. Why? Because he has no knowledge, since to know means to be able to learn.

Heidegger, “Introduction to Metaphysics”, p. 23 (Yale University Press)

Nietzsche – a destruição da subjetividade

Não somos batráquios pensantes, não somos aparelhos de objetivar e registrar, de entranhas congeladas – temos de continuamente parir nossos pensamentos em meio a nossa dor, dando-lhes maternalmente todo o sangue, coração, fogo, prazer, paixão, tormento, consciência, destino e fatalidade que há em nós. Viver – isso significa, para nós, transformar em luz e flama tudo o que somos, e também tudo o que nos atinge; não podemos agir de outro modo.

NIETZSCHE, “A gaia ciência”

Ortega y Gasset – sobre o “ensimesmamento”

Acha-se o homem, não menos do que o animal, consignado ao mundo, às coisas em torno, à circunstância. Em princípio, sua existência mal difere da existência zoológica: êle, também, vive governado pelo contorno, inserido entre as coisas do mundo como uma delas. Não obstante, mal os seres em torno lhe deixam um alento, o homem, fazendo um esforço gigantesco, consegue um instante de concentração, mete-se dentro de si, isto é, mantém, a duras penas, sua atenção fixa nas ideias que brotam dentro dele, ideias que as coisas suscitam, e que se referem ao comportamento destas, ao que logo o filósofo chamará “o ser das coisas”. Trata-se, de pronto, de uma ideia muito tosca, sobre o mundo, mas que permita esboçar um primeiro plano de defesa, uma conduta preconcebida. Mas, nem essas coisas em torno lhe permitem vagar por muito tempo nessa concentração; tampouco, embora elas o consentissem, esse homem primigênio seria capaz de prolongar mais de uns segundos ou minutos essa torção aten-cional, essa fixação nos impalpáveis fantasmas que são as ideias. Essa atenção para dentro, que é o ensimesmamento, constitui o fato mais antinatural, mais ultrabiológico. O homem tardou milhares de anos para educar um pouco, – nada mais que um pouco, – a sua capacidade de concentração. O que lhe é natural é dispersar-se, distrair-se para fora, como o macaco na selva e na jaula do Jardim Zoológico.

Ortega y Gasset, O Homem e a Gente. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1960, p. 62-65

Spinoza – as teorias morais como sátiras

Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostaria que fossem. Daí, por conseqüência, que quase todos, em vez de uma ética, hajam escrito uma sátira…

Spinosa, “Tratado Político”