Vlastos: sobre Sócrates

Quem busca Sócrates nos diálogos de Platão encontra de fato dois Sócrates. […] O indivíduo permanece o mesmo […]. Filosofa sem descanso. Mas, assim fazendo, propõe nestes dois grupos de diálogos duas filosofias tão diferentes que elas não teriam como coabitar muito tempo no mesmo cérebro, a menos que isto fosse no cérebro de um esquizofrênico.

Vlastos, “Socrate” Continuar lendo

Anúncios

Heidegger – sobre ser filósofo e o cuidado com as palavras

Como atenção ao apelo que o ser faz ao homem, a “filosofia” é primordialmente o cuidado do ser e nunca uma questão de “cultura” e conhecimento. Por isso é que alguém pode dispor de uma grande soma de conhecimentos eruditos sobre as doutrinas filosóficas e opiniões dos filósofos sem nunca ser “filósofo”, sem saber “filosofar”. Outros, por sua vez, podem ser tocados pelo apelo do ser, sem saber o que é nem responder ao apelo do ser em um e através de um pensamento correspondente.

Ao pensamento que pensa, pertence, sem dúvida, um saber e um cuidado com o sentido da reflexão e um esmero da palavra que sobrepuja essencialmente todas as exigências de mera exatidão científica.

Heidegger, GA54 Continuar lendo

Heidegger – pensar no seu tempo e espaço

Por outro lado, qualquer pessoa pode seguir os caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Porquê? Porque o Homem é o ser (Wesen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não precisamos portanto, de modo algum, de nos elevarmos às «regiões superiores» quando refletimos. Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; aqui, neste pedaço de terra natal; agora, na presente hora universal.

Heidegger, GA16 (p. 11-14) Continuar lendo

Rousseau – por que somente o homem está sujeito a se tornar um imbecil?

Não vejo em todo animal senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza deu sentidos para prover-se ela mesma, e para se preservar, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou perturbá-la. Percebo precisamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que só a natureza faz tudo nas operações do animal, ao passo que o homem concorre para as suas na qualidade de agente livre. Um escolhe ou rejeita por instinto, o outro por um ato de liberdade, o que faz com que o animal não possa afastar-se da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e que o homem dela se afaste freqüentemente em seu prejuízo. É assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes, e um gato sobre uma porção de frutas ou de grãos, embora ambos pudessem nutrir-se com os alimentos que desdenham, se procurassem experimentá-lo; é assim que os homens dissolutos se entregam a excessos que lhes ocasionam a febre e a morte, porque o espírito deprava os sentidos, e a vontade fala ainda quando a natureza se cala. […] Porque só o homem está sujeito a se tornar imbecil?

Rousseau, “Discurso sobre a desigualdade entre os homens” Continuar lendo

Nietzsche – a ciência graças a três erros

Graças a três erros – A ciência foi promovida nos últimos séculos, em parte porque com ela e mediante ela se esperava compreender melhor a bondade e a sabedoria divina – o motivo principal na alma dos grandes ingleses (como Newton) -, em parte porque se acreditava na absoluta utilidade do conhecimento, sobretudo na íntima ligação de moral, saber e felicidade – o motivo principal na alma dos grandes franceses (como Voltaire) -, em parte porque na ciência pensava-se ter e amar algo desinteressado, inócuo, bastante a si mesmo, verdadeiramente inocente, no qual os impulsos maus dos homens não teriam participação – o motivo principal na alma de Espinosa, que, como homem do conhecimento, sentia-se divino: graças a três erros, portanto.

Nietzsche, “A Gaia Ciência” Continuar lendo

Heidegger – êthos, a morada do homem

Por oposição à “física”, que pensa o ente na sua totalidade, a “ética” se concentra num ente específico, o homem. Só que o homem não é considerado como um pedaço dos entes na totalidade, recortado dos demais entes. É considerado na perspectiva de ser o ente, e o único ente, que se atém aos entes na sua totalidade, que se relaciona com os entes em sua totalidade e, assim, consigo mesmo, ou seja, cujo comportamento se cumpre e planta a cada vez a partir de uma postura ou impostura, tò êthos é a postura, o porte do comportamento do homem frente à totalidade dos entes.

Heidegger, “Heráclito” Continuar lendo