Sloterdijk – sobre o humano

A questão sobre a essência do ser humano não entra no rumo certo até que nos afastemos da mais velha, mais obstinada e mais perniciosa das práticas da metafísica europeia: definir o ser humano como animal rationale. Nessa interpretação da essência do homem, este continua a ser entendido como uma animalitas expandida por adições espirituais. Contra isso revolta-se a análise existencial-ontológica de Heidegger, pois, para ele, a essência do ser humano não pode jamais ser expressa em uma perspectiva zoológica ou biológica, mesmo que a ela se acresça regularmente um fator espiritual ou transcendente.

Peter Sloterdijk, “Regras para o parque humano” Continuar lendo

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Dastur: Heidegger and Ethics

For Heidegger, “ontology” thus understood is always “practical,” always “engaged,” and thus bears an intrinsically ethical dimension. This is doubtless the reason Heidegger has not written on ethics: because he surely does not need “to add” it on to an ontology that would then itself be conceived only as a part of philosophy. Here it is implicit that he thinks Being in a way that is different from the tradition­ which identifies Being with substance. Heidegger, like Levinas, is critical of the Western tradition. His thought unfolds “beyond” or at the “end” of philosophy, as he clearly lets it be known after the “turn.”

Dastur, “Call of Conscience” Continuar lendo

Arendt – sobre o fazer e o agir

Ao contrário da fabricação, a ação jamais é possível no isolamento. Estar isolado é estar privado da capacidade de agir. A ação e o discurso necessitam tanto da circunvizinhança de outros quanto a fabricação necessita da circunvizinhança da natureza, da qual obtém matéria-prima, e do mundo, onde coloca o produto acabado. A fabricação é circundada pelo mundo e está em permanente contato com ele; a ação e o discurso são circundados pela teia de atos e palavras de outros homens, e estão em permanente contato com ela. O mito popular de um «homem forte» que, isolado dos outros, deve sua força ao fato de estar só, é mera superstição baseada na ilusão de que podemos «fazer» algo na esfera dos negócios humanos — «fazer» instituições ou leis, por exemplo, como fazemos mesas e cadeiras, ou fazer o homem «melhor» ou «pior».

Hannah Arendt, “A Condição Humana” Continuar lendo

Olivier Abel – saber interrogar

Saber interrogar os [discursos ou situações], com efeito, significa saber os interpretar, saber sob que ângulo de ataque os tomar, por qual bordo. A filosofia aqui não supõe conhecimentos prévios: é um gesto ou um olhar a apreender. Frequentemente discursos e textos, mas também gestos e mesmo objetos só são incompreensíveis porque não sabemos à qual questão questão respondem, e que não nos pomos nem mesmo a questão. Saber interrogar, é buscar perceber o invisível, as questões às quais os fatos, as palavras e os comportamentos respondem; e é compreender que estas questões não são forçosamente as nossas, que não compreendemos tudo. É também compreender que estas respostas podem abrir novas questões, às quais elas não respondem, e às quais nem sonhamos. Há portanto algo como um aprendizado da interrogação, e é ao mesmo tempo uma formação da inteligência e uma abertura propriamente ética: a integração progressiva das questões de outro e dos outros pontos de vista a nossa percepção e a nossa concepção do mundo.

Olivier Abel, “L’éthique interrogative” Continuar lendo

Heidegger – sobre o homem

O terceiro título mencionado, episteme ethike, designa o entender-se com aquilo que pertence ao êthos. êthos significa, originariamente, morada, modo de ater-se a…. No título episteme ethike faz-se referência a êthos. Significa, pois, o ater-se do homem, o habitar, a “moradia” dos homens em meio à totalidade dos entes. O essencial no êthos, nesse ater-se, é o modo em que o homem se detém e comporta frente ao ente, e com isso se mantém e se deixa deter. O entender-se com o êthos, o saber do êthos, é a “ética”. […] O homem é, o homem mora em meio à totalidade dos entes sem constituir, porém, o seu meio no sentido de ser um fundamento de sustenção e intervenção sobre os entes. O homem está em meio aos homens, mas não é o meio. Tanto a episteme physike como a episteme ethike constituem um entender-se com a totalidade dos entes que se mostra para o homem, com a qual ele se comporta, na qual ele se atém e demora.

Heidegger, “Heráclito”, 1998, p. 218

António Caeiro – praxis e ética no pensamento grego

Mas de todos os problemas postos, o maior resulta de há já muito termos perdido o contacto com o sentido essencial do prático tal como os Gregos o experimentavam espontaneamente. E desse sentido que dependem a possibilidade da sua caracterização, enquadramento e compreensão. Caracterizar o horizonte prático é caracterizar a situação específica em que o Humano se encontra. O sentido original do substantivo «práxis» é dificilmente vertido para português através de termos como «acção» ou «prática». O verbo «práttein» significa passar por, atravessar. Significa também estar sujeito ao acaso, ao feliz tanto quanto ao infeliz. Significa bem assim «levar a cabo», «realizar», «cumprir». Nesta conformidade, o horizonte prático é o espaço onde tem lugar aquilo por que se passa: as situações em que caímos e as situações que criamos. O Humano existe desprotegido num horizonte que o deixa necessariamente exposto aos reveses da fortuna, aos caprichos do acaso, aos golpes do destino, à adversidade em geral. O mundo em que vivemos, os outros que aí encontramos, nós próprios no que nos dá para fazer, tudo isto forma frentes provocadoras da acção. Mas a acção só acontece quando arranjamos um espaço de manobra para a levar a cabo de livre e espontânea vontade, de forma plenamente consciente.

Antonio Caiero, texto retirado do capítulo “Apresentação” de sua tradução da obra “Ética à Nicômaco” Continuar lendo