Gilles-Gaston Granger: a essência da técnica

“A traveler accounts that, in the forests of Ecuador, indigenous tribes live without
contact with the civilized. One day, a hundred trucks, excavators, bulldozers working for an oil company opening roads, drilling wells, subverting the forest come to their domains”. Here’s how the Indians, stupefied, explain to each other the phenomenon: “new animals, they said, appeared. They domesticated men who obey and serve them as slaves. And white men feed and open them paths through the forest…”.

Gilles-Gaston Granger, “Reason”

Sartre – apologia à fenomenologia

Ele comia com os olhos. Esta frase e muitos outros signos marcam suficientemente a ilusão comum ao realismo e ao idealismo, segundo a qual conhecer é comer. A filosofia francesa, após cem anos de academicismo, ainda permanece nisto. (…) todos acreditamos que o Espírito-Aranha atraia as coisas para sua teia, cobria-as com uma baba branca e lentamente as deglutia,
reduzindo-as à sua própria substância. O que é uma mesa, um rochedo, uma casa? Um certo composto de “conteúdos de consciência”, uma ordem desses conteúdos.

SARTRE, Jean-Paul. “Une idée fondamentale de la phénoménologie de Husserl: l‟intentionnalité”, in: Sartre, La transcendance de l’Ego et autres textes phénoménologiques. Texte introduits et annotés par V. de Coorebyter. Paris: J. Vrin, 2003.

Descartes – cogito ergo sum

I suppose, accordingly, that all the things which I see are false; fictitious. I believe that none of those objects which my fallacious memory represents ever existed; I suppose that I possess no senses; I believe that body, figure, extension, motion, and place are merely fictions of my mind. What is there, then, that can be esteemed true? Perhaps this only, that there is absolutely nothing certain. But how do I know that there is not something different altogether from the objects I have now enumerated, of which it is impossible to entertain the slightest doubt? Is there not a God, or some being, by whatever name I may designate Him, who causes these thoughts to arise in my mind? But why suppose such a Being, for it may be I myself am capable of producing them? Am I, then, at least not something? But I before denied that I possessed senses or a body; I hesitate, however, for what follows from that? Am I so dependent on the body and the senses that without these I cannot exist? But I had the persuasion that there was absolutely nothing in the world, that there was no sky and no earth, neither minds nor bodies; was I not, therefore, at the same time, persuaded that I did not exist? Far from it; I assuredly existed, since I was persuaded. But there is I know not what being, who is possessed at once of the highest power and the deepest cunning, who is constantly employing all his ingenuity in deceiving me. Doubtless, then, I exist, since I am deceived; and, let him deceive me as he may, he can never bring it about that I am nothing, so long as I shall be conscious that I am something. So that it must, in fine, be maintained, all things being maturely and carefully considered, that this proposition: I am, I exist; is necessarily true each time it is expressed by me, or conceived in my mind.

Descartes, “Meditations On First Philosophy”

Alain Boutot – Heidegger e a técnica

Alguns viram na interpretação heideggeriana da modernidade uma condenação sem apelo equivalente a uma rejeição pura e simples da técnica. Este modo de ver repousa, na realidade, sobre um mal-entendido tenaz que o próprio Heidegger não cessou de denunciar. O discurso heideggeriano não é dirigido contra a técnica e não prega um qualquer retorno à Idade Média ou mesmo à Idade da Pedra, o que seria ridículo, mas tenta fundamentalmente discernir-lhe a essência. Heidegger aborda a técnica como «fenomenólogo», perspectivando-a no quadro da história do ser. Mais precisamente, visa preparar, ao evidenciar o perigo inerente à essência da técnica, o discernimento do que reclama desde sempre ser pensado, ou seja, o discernimento do próprio ser.

Alain Boutot, Introdução à Filosofia de Heidegger, 1993, p. 104-108

Luijpen – impossível pensar sem a tradição

Como filósofo sou uma pessoa, um eu, e meu filosofar só é legítimo sendo o meu filosofar. Toda pessoa, porém, acha-se inserta em uma história que não é pessoal, que o indivíduo mesmo não fez. Trata-se de uma inserção inevitável. Não posso, pois, começar a pensar do ponto zero, porque o que penso já foi pensado, e em tal pensamento fui acolhido. Sou levado pelo pensamento da tradição, pelo menos porque falo sua linguagem e me acho imbuído dos pensamentos encarnados nessa linguagem. Pensar sem linguagem é impossível; não menos impossível, pensar sem tradição.

Isso não quer dizer que o filósofo precise abandonar a pretensão de pensar pessoalmente. De maneira alguma. Ainda que levado pela história do pensamento, o filósofo é chamado a despertá-la para uma nova vida. Acontece isso ao se aprofundar nas obras dos que o precederam. Os filósofos do passado têm coisas importantes a dizer-nos.

William Luijpen

Pierre Hadot – a filosofia de Platão como “modo de vida”

Up to now, we have spoken solely of oral dialogue as it must have been practiced within the Academy. We can only imagine what this dialogue must have been like, by means of the examples we find in Plato’s written work; and in order to simplify things, we have often quoted them using the phrase “as Plato says.” Yet this expression is quite inexact, for Plato, in his written works, never says anything in his own voice. Whereas Xenophanes, Parmenides, Empedocles, the Sophists, and Xenophon had not hesitated to write in the first person, Plato makes fictional characters speak within fictional situations. Only in the Seventh Letter does he allude to his philosophy, and when he does he describes it more as a way of life. Above all, he declares that with regard to the object of his concerns, he has not published any written work, nor will he ever do so, for the knowledge in question cannot under any circumstances be formulated like other bodies of knowledge. Instead, it springs forth within the soul, when one has long been familiar with the activity in which it consists and has devoted one’s life to it.

Pierre Hadot, “What is Ancient Philosophy?”

Foucault – quando o discurso filosófico perde o sentido

Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho.

Foucault, “A História da Sexualidade II”