Heidegger – sobre o homem

O terceiro título mencionado, episteme ethike, designa o entender-se com aquilo que pertence ao êthos. êthos significa, originariamente, morada, modo de ater-se a…. No título episteme ethike faz-se referência a êthos. Significa, pois, o ater-se do homem, o habitar, a “moradia” dos homens em meio à totalidade dos entes. O essencial no êthos, nesse ater-se, é o modo em que o homem se detém e comporta frente ao ente, e com isso se mantém e se deixa deter. O entender-se com o êthos, o saber do êthos, é a “ética”. […] O homem é, o homem mora em meio à totalidade dos entes sem constituir, porém, o seu meio no sentido de ser um fundamento de sustenção e intervenção sobre os entes. O homem está em meio aos homens, mas não é o meio. Tanto a episteme physike como a episteme ethike constituem um entender-se com a totalidade dos entes que se mostra para o homem, com a qual ele se comporta, na qual ele se atém e demora.

Heidegger, “Heráclito”, 1998, p. 218

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António Caeiro – praxis e ética no pensamento grego

Mas de todos os problemas postos, o maior resulta de há já muito termos perdido o contacto com o sentido essencial do prático tal como os Gregos o experimentavam espontaneamente. E desse sentido que dependem a possibilidade da sua caracterização, enquadramento e compreensão. Caracterizar o horizonte prático é caracterizar a situação específica em que o Humano se encontra. O sentido original do substantivo «práxis» é dificilmente vertido para português através de termos como «acção» ou «prática». O verbo «práttein» significa passar por, atravessar. Significa também estar sujeito ao acaso, ao feliz tanto quanto ao infeliz. Significa bem assim «levar a cabo», «realizar», «cumprir». Nesta conformidade, o horizonte prático é o espaço onde tem lugar aquilo por que se passa: as situações em que caímos e as situações que criamos. O Humano existe desprotegido num horizonte que o deixa necessariamente exposto aos reveses da fortuna, aos caprichos do acaso, aos golpes do destino, à adversidade em geral. O mundo em que vivemos, os outros que aí encontramos, nós próprios no que nos dá para fazer, tudo isto forma frentes provocadoras da acção. Mas a acção só acontece quando arranjamos um espaço de manobra para a levar a cabo de livre e espontânea vontade, de forma plenamente consciente.

Antonio Caiero, texto retirado do capítulo “Apresentação” de sua tradução da obra “Ética à Nicômaco” Continuar lendo

Beauchamp – sobre os princípios da Bioética

Antes dos anos 1970, não havia um solo firme no qual um compromisso a princípios ou mesmo uma teoria ética pudesse se enraizar na ética biomédica. […]
Princípios que pudessem ser compreendidos com relativa facilidade pelos membros das várias disciplinas figuradas proeminentemente no desenvolvimento da ética biomédica durante os anos 1970 e início dos 1980. Princípios foram usados para apresentar molduras de pressupostos avaliativos de maneira que eles poderiam ser usados, e imediatamente compreendidos, por pessoas com muitas formas diferentes de treinamento profissional. A moralidade assim destilada, encontrada nos princípios, deu às pessoas um grupo de normas gerais compartilhadas e de serventia para análise de muitos tipos de problemas morais. Em alguns respeitos, poderia ser até defendido que os princípios deram ao campo embriônico da bioética um método particular para atacar seus problemas, e isto deu certa coerência mínima e uniformidade à bioética.

BEAUCHAMP, “Standing on Principles”
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Heidegger – só um Deus pode nos salvar

[…] A filosofia a não estará apta a efetuar uma transformação imediata na presente condição do mundo. Isto é verdadeiro não apenas para a filosofia a, mas para todo pensamento meramente humano e empenho. Só um deus pode nos salvar. A única possibilidade que nos é deixada é a de preparar uma espécie de prontidão, através do pensar e do poetar, para o aparecimento do deus ou para a ausência do deus em tempo de decadência; pois perante a face do deus ausente, nós naufragamos.

Heidegger, entrevista ao Der Spiegel Continuar lendo

Vlastos: sobre Sócrates

Quem busca Sócrates nos diálogos de Platão encontra de fato dois Sócrates. […] O indivíduo permanece o mesmo […]. Filosofa sem descanso. Mas, assim fazendo, propõe nestes dois grupos de diálogos duas filosofias tão diferentes que elas não teriam como coabitar muito tempo no mesmo cérebro, a menos que isto fosse no cérebro de um esquizofrênico.

Vlastos, “Socrate” Continuar lendo

Heidegger – sobre ser filósofo e o cuidado com as palavras

Como atenção ao apelo que o ser faz ao homem, a “filosofia” é primordialmente o cuidado do ser e nunca uma questão de “cultura” e conhecimento. Por isso é que alguém pode dispor de uma grande soma de conhecimentos eruditos sobre as doutrinas filosóficas e opiniões dos filósofos sem nunca ser “filósofo”, sem saber “filosofar”. Outros, por sua vez, podem ser tocados pelo apelo do ser, sem saber o que é nem responder ao apelo do ser em um e através de um pensamento correspondente.

Ao pensamento que pensa, pertence, sem dúvida, um saber e um cuidado com o sentido da reflexão e um esmero da palavra que sobrepuja essencialmente todas as exigências de mera exatidão científica.

Heidegger, GA54 Continuar lendo

Heidegger – pensar no seu tempo e espaço

Por outro lado, qualquer pessoa pode seguir os caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Porquê? Porque o Homem é o ser (Wesen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não precisamos portanto, de modo algum, de nos elevarmos às «regiões superiores» quando refletimos. Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; aqui, neste pedaço de terra natal; agora, na presente hora universal.

Heidegger, GA16 (p. 11-14) Continuar lendo