Rousseau – por que somente o homem está sujeito a se tornar um imbecil?

Não vejo em todo animal senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza deu sentidos para prover-se ela mesma, e para se preservar, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou perturbá-la. Percebo precisamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que só a natureza faz tudo nas operações do animal, ao passo que o homem concorre para as suas na qualidade de agente livre. Um escolhe ou rejeita por instinto, o outro por um ato de liberdade, o que faz com que o animal não possa afastar-se da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e que o homem dela se afaste freqüentemente em seu prejuízo. É assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes, e um gato sobre uma porção de frutas ou de grãos, embora ambos pudessem nutrir-se com os alimentos que desdenham, se procurassem experimentá-lo; é assim que os homens dissolutos se entregam a excessos que lhes ocasionam a febre e a morte, porque o espírito deprava os sentidos, e a vontade fala ainda quando a natureza se cala. […] Porque só o homem está sujeito a se tornar imbecil?

Rousseau, “Discurso sobre a desigualdade entre os homens” Continuar lendo

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Denise Quintão – o homem é um ser do mundo

O homem é o único ser que, para existir, tem de conquistar sua própria existência, pois o existir humano não se dá num simples viver e morrer. Para o homem, a morte, assim como a vida, é sempre uma conquista. Pobre de mundo, o animal simplesmente morre, não espera pela morte, nem teme a morte, e por isso mesmo não procura superar a morte. Mas o homem é um ser do mundo, e por isso morre determinado pela conquista de sua própria existência, um empenho de superação da morte. A vida humana é mais do que sinais vitais; é sentido. Não há nada no homem que seja puramente animal. A animalidade no homem é absorvida e transformada pela sua humanidade.

Denise Quintão, “Ética e Responsabilidade na Vida”

Ortega y Gasset – sobre o “ensimesmamento”

Acha-se o homem, não menos do que o animal, consignado ao mundo, às coisas em torno, à circunstância. Em princípio, sua existência mal difere da existência zoológica: êle, também, vive governado pelo contorno, inserido entre as coisas do mundo como uma delas. Não obstante, mal os seres em torno lhe deixam um alento, o homem, fazendo um esforço gigantesco, consegue um instante de concentração, mete-se dentro de si, isto é, mantém, a duras penas, sua atenção fixa nas ideias que brotam dentro dele, ideias que as coisas suscitam, e que se referem ao comportamento destas, ao que logo o filósofo chamará “o ser das coisas”. Trata-se, de pronto, de uma ideia muito tosca, sobre o mundo, mas que permita esboçar um primeiro plano de defesa, uma conduta preconcebida. Mas, nem essas coisas em torno lhe permitem vagar por muito tempo nessa concentração; tampouco, embora elas o consentissem, esse homem primigênio seria capaz de prolongar mais de uns segundos ou minutos essa torção aten-cional, essa fixação nos impalpáveis fantasmas que são as ideias. Essa atenção para dentro, que é o ensimesmamento, constitui o fato mais antinatural, mais ultrabiológico. O homem tardou milhares de anos para educar um pouco, – nada mais que um pouco, – a sua capacidade de concentração. O que lhe é natural é dispersar-se, distrair-se para fora, como o macaco na selva e na jaula do Jardim Zoológico.

Ortega y Gasset, O Homem e a Gente. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1960, p. 62-65