Carneiro Leão – a tarefa do pensador

Em toda leitura e interpretação de um texto está em jogo a capacidade de pensar de quem lê e interpreta. “A filosofia não é uma doutrina. É uma atividade”, diz Wittgenstein, no Tractatus; a atividade de aprender e ensinar a pensar. A tarefa do pensador não é construir respostas nem formular teorias. Isto é coisa de cientista. A tarefa do pensador é examinar as irrupções das diversas respostas e teorias em seus respectivos pressupostos de sustentação.

Carneiro Leão, “Filosofia Grega”

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Carneiro Leão – a ditadura da razão

O que é a ditadura da razão? A ditadura da razão é exclusiva e excludente e consiste em montar um sistema universal de prestar contas e dar explicações evidentes e suficientes, coerentes e consistentes de tudo que é, de tudo que se conhece e de tudo que se faz, seja nas ações que se põem, seja nas atitudes que se tomam, seja nas omissões, que se praticam. Prestar conta e dar explicação está em arguir, consiste em argumentar, no sentido de oferecer, discursivamente, condições necessárias e suficientes de possibilidade e determinação, de controle e sustentação. Racionalidade não diz apenas a regra e o domínio da razão. Racionalidade diz sobretudo a razão, como regra e domínio de tudo. Para os fragmentos de Heráclito nos poderem levar até à atmosfera do pensamento, temos de nos dispor a violar a ditadura da razão e de nos descolar da discursividade da lógica. Mas para ficar com quê? de mãos vazias? ou com uma mão na frente e outra atrás? – Não! Em lugar de razão e lógica, aquela disposição e esta descolagem nos presenteiam com o vigor do Lógos: a dialética. A morada do pensador nunca pode ser de exclusão mas é sempre de inclusão. O pensamento acolhe no e pelo ordinário o extraordinário, vê o invisível no visível, é a disputa recíproca do que se exclui com o que se inclui. Os ditos do pensamento não se movem rígidos e inflexíveis, como a necessidade; não são “dicta-dura”, os ditos do pensamento fluem maleáveis e dóceis, como a possibilidade; são “dicta suavia”.

Carneiro Leão, “Filosofia Grega: uma introdução”

Carneiro Leão – o império da lógica

Com Platão cessa o viço originário da mitologia e o mágico perde a taumaturgia da palavra. Do mythos se passa para o lógos. O raciocínio dos conceitos substitui as visões proféticas dos mistérios. O império da lógica vai se alongando e começa a cobrir todos os espaços.
Para ter algum valor real nada pode deixar de ser lógico […]. A razão suprema é a única realização que tem tudo que é […]. Existe lógica para tudo e tudo tem a sua lógica.
Carneiro Leão, “Aprendendo a pensar”