Kant – sobre o testemunho dos fatos

A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na qualidade de aluno que aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas funções, que obriga as testemunhas a responder aos quesitos que lhes apresenta.

Kant, “Crítica da Razão Pura”, 2001, p.18

Paulo Serra – a ciência como catástrofe iminente

“A manipulação posta em jogo pela ciência moderna, ao adquirir o poder de incidir sobre o íntimo da matéria – a energia atómica e nuclear – e sobre o íntimo da vida – o código genético – acaba por colocar a Humanidade numa situação de catástrofe iminente, que pode levar à aniquilação definitiva da Terra e do Homem que a habita.

Esta situação de catástrofe iminente tem, no entanto, pelo menos um efeito positivo: a tomada de consciência definitiva e irremediável de que há uma só Terra, uma só Humanidade e que o futuro – ou a ausência de futuro – de ambas está nas mãos do Homem.

Esta tomada de consciência, que há muito existe entre os filósofos, os homens religiosos e os líderes espirituais em geral, existe também hoje, de forma cada vez mais generalizada, entre os próprios cientistas.”

Paulo Serra, “O Devir e os Limites da Ciência”, p.4

Heidegger – sobre o método cartesiano

[…] “Método” é agora o nome para o pro-cedimento assegurador e conquistador que se abate sobre o ente, a fim de assegurá-lo como objeto para o sujeito. E nesse sentido metafísico que o termo methodus é visado, quando Descartes apresenta no importante ensaio “Regulae ad directionem ingenii”, ensaio que só foi publicado depois de sua morte, a IV. Regula: “Necessaria est methodus ad rerutn veritatem investigandam.”

“Necessário (essencialmente necessário) é o método, a fim de farejar o rastro da verdade (certeza) do ente e de seguir esse rastro.”

Heidegger, “Nietzsche II”, p.101

A investigação filosófica

“[…] philosophy has no authority to judge the validity of specific scientific theories. But any such theory is constructed and tested in ways which presuppose the validity of certain assumptions about the domain under investigation, assumptions that it can consequently neither justify nor undermine, and which therefore require a very different type of examination. The scientist may well be the best exponent of the practices of inductive reasoning as applied to the realm of nature; but if questions are raised about the precise structure of inductive reasoning and its ultimate justification as a mode of discovering truth, then the abilities of the philosopher come into play.”

Mulhall, Stephen. “Heidegger and Being and time”

Ortega y Gasset – o imperialismo das ciências

“[…] durante o século XIX, todas as ciências exerceram o mais atrevido imperialismo. Era este o modo vital que inspirou a toda essa época em todas as ordens. E como um povo pugnava por imperar aos demais e uma arte às outras artes e uma classe social às restantes, quase não houve ciência que não fizesse sua campanha imperialista, obstinando-se em capitanear as demais, talvez reformá-las radicalmente. Durante uma temporada tudo quis ser física; depois tudo quis ser história; mais tarde tudo se converteu em biologia; em seguida todas as ciências aspiraram a ser matemáticas e gozar os benefícios do axiomatismo.”

Ortega y Gasset, “Meditação da Técnica” (p. 101)