Heidegger – o “saber” essencial é diferente da ciência

O “saber” essencial não domina sobre o que lhe é dado saber, mas é tocado por ele. Por exemplo, só para tomar um caso entre outros, cada “ciência” é um conhecimento de dominação, um sobrepujar e um ultrapassar, quando não simplesmente um passar por cima do ente. Isso se realiza no modo da objetivação. Em contrapartida, o saber essencial, a atenção, é um retroceder diante do ser. Num tal retroceder vemos e percebemos essencialmente mais, ou seja, algo totalmente diferente do produto do procedimento notável da ciência moderna. Pois esta última é sempre um assalto técnico ao ente e uma intervenção tendo em vista uma “orientação” ativa, “produtiva”, operosa e comercial.

Heidegger, Parmênides

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Nietzsche – o delírio da ciência

[…] uma profunda representação ilusória, que veio ao mundo pela primeira vez na pessoa de Sócrates – aquela inabalável fé de que o pensar, pelo fio condutor da causalidade, atinge até os abismos mais profundos do ser e que o pensar está em condições, não só de conhecê-lo, mas inclusive de corrigi-lo. Essa sublime ilusão metafísica é aditada como instinto à ciência, e a conduz sempre de novo a seus limites, onde ela tem de transmutar-se em arte, que é o objetivo propriamente visado por esse mecanismo.

Nietzsche, “O Nascimento da Tragédia”

Kant – sobre o testemunho dos fatos

A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na qualidade de aluno que aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas funções, que obriga as testemunhas a responder aos quesitos que lhes apresenta.

Kant, “Crítica da Razão Pura”, 2001, p.18

Paulo Serra – a ciência como catástrofe iminente

“A manipulação posta em jogo pela ciência moderna, ao adquirir o poder de incidir sobre o íntimo da matéria – a energia atómica e nuclear – e sobre o íntimo da vida – o código genético – acaba por colocar a Humanidade numa situação de catástrofe iminente, que pode levar à aniquilação definitiva da Terra e do Homem que a habita.

Esta situação de catástrofe iminente tem, no entanto, pelo menos um efeito positivo: a tomada de consciência definitiva e irremediável de que há uma só Terra, uma só Humanidade e que o futuro – ou a ausência de futuro – de ambas está nas mãos do Homem.

Esta tomada de consciência, que há muito existe entre os filósofos, os homens religiosos e os líderes espirituais em geral, existe também hoje, de forma cada vez mais generalizada, entre os próprios cientistas.”

Paulo Serra, “O Devir e os Limites da Ciência”, p.4

Heidegger – sobre o método cartesiano

[…] “Método” é agora o nome para o pro-cedimento assegurador e conquistador que se abate sobre o ente, a fim de assegurá-lo como objeto para o sujeito. E nesse sentido metafísico que o termo methodus é visado, quando Descartes apresenta no importante ensaio “Regulae ad directionem ingenii”, ensaio que só foi publicado depois de sua morte, a IV. Regula: “Necessaria est methodus ad rerutn veritatem investigandam.”

“Necessário (essencialmente necessário) é o método, a fim de farejar o rastro da verdade (certeza) do ente e de seguir esse rastro.”

Heidegger, “Nietzsche II”, p.101