Lao Tzu – sobre a decadência da ética

Quando o Tao é perdido, há o bem. Quando o bem é perdido, há a moralidade. Quando a moralidade é perdida, há o ritual. O ritual é a casca da verdadeira confiança, o início do caos.

Livro do Caminho e da Virtude 38, Lao Tzu, séc. V a.C.
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Dastur: Heidegger and Ethics

For Heidegger, “ontology” thus understood is always “practical,” always “engaged,” and thus bears an intrinsically ethical dimension. This is doubtless the reason Heidegger has not written on ethics: because he surely does not need “to add” it on to an ontology that would then itself be conceived only as a part of philosophy. Here it is implicit that he thinks Being in a way that is different from the tradition­ which identifies Being with substance. Heidegger, like Levinas, is critical of the Western tradition. His thought unfolds “beyond” or at the “end” of philosophy, as he clearly lets it be known after the “turn.”

Dastur, “Call of Conscience” Continuar lendo

Heidegger – sobre o homem

O terceiro título mencionado, episteme ethike, designa o entender-se com aquilo que pertence ao êthos. êthos significa, originariamente, morada, modo de ater-se a…. No título episteme ethike faz-se referência a êthos. Significa, pois, o ater-se do homem, o habitar, a “moradia” dos homens em meio à totalidade dos entes. O essencial no êthos, nesse ater-se, é o modo em que o homem se detém e comporta frente ao ente, e com isso se mantém e se deixa deter. O entender-se com o êthos, o saber do êthos, é a “ética”. […] O homem é, o homem mora em meio à totalidade dos entes sem constituir, porém, o seu meio no sentido de ser um fundamento de sustenção e intervenção sobre os entes. O homem está em meio aos homens, mas não é o meio. Tanto a episteme physike como a episteme ethike constituem um entender-se com a totalidade dos entes que se mostra para o homem, com a qual ele se comporta, na qual ele se atém e demora.

Heidegger, “Heráclito”, 1998, p. 218

António Caeiro – praxis e ética no pensamento grego

Mas de todos os problemas postos, o maior resulta de há já muito termos perdido o contacto com o sentido essencial do prático tal como os Gregos o experimentavam espontaneamente. E desse sentido que dependem a possibilidade da sua caracterização, enquadramento e compreensão. Caracterizar o horizonte prático é caracterizar a situação específica em que o Humano se encontra. O sentido original do substantivo «práxis» é dificilmente vertido para português através de termos como «acção» ou «prática». O verbo «práttein» significa passar por, atravessar. Significa também estar sujeito ao acaso, ao feliz tanto quanto ao infeliz. Significa bem assim «levar a cabo», «realizar», «cumprir». Nesta conformidade, o horizonte prático é o espaço onde tem lugar aquilo por que se passa: as situações em que caímos e as situações que criamos. O Humano existe desprotegido num horizonte que o deixa necessariamente exposto aos reveses da fortuna, aos caprichos do acaso, aos golpes do destino, à adversidade em geral. O mundo em que vivemos, os outros que aí encontramos, nós próprios no que nos dá para fazer, tudo isto forma frentes provocadoras da acção. Mas a acção só acontece quando arranjamos um espaço de manobra para a levar a cabo de livre e espontânea vontade, de forma plenamente consciente.

Antonio Caiero, texto retirado do capítulo “Apresentação” de sua tradução da obra “Ética à Nicômaco” Continuar lendo

Beauchamp – sobre os princípios da Bioética

Antes dos anos 1970, não havia um solo firme no qual um compromisso a princípios ou mesmo uma teoria ética pudesse se enraizar na ética biomédica. […]
Princípios que pudessem ser compreendidos com relativa facilidade pelos membros das várias disciplinas figuradas proeminentemente no desenvolvimento da ética biomédica durante os anos 1970 e início dos 1980. Princípios foram usados para apresentar molduras de pressupostos avaliativos de maneira que eles poderiam ser usados, e imediatamente compreendidos, por pessoas com muitas formas diferentes de treinamento profissional. A moralidade assim destilada, encontrada nos princípios, deu às pessoas um grupo de normas gerais compartilhadas e de serventia para análise de muitos tipos de problemas morais. Em alguns respeitos, poderia ser até defendido que os princípios deram ao campo embriônico da bioética um método particular para atacar seus problemas, e isto deu certa coerência mínima e uniformidade à bioética.

BEAUCHAMP, “Standing on Principles”
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Heidegger – êthos, a morada do homem

Por oposição à “física”, que pensa o ente na sua totalidade, a “ética” se concentra num ente específico, o homem. Só que o homem não é considerado como um pedaço dos entes na totalidade, recortado dos demais entes. É considerado na perspectiva de ser o ente, e o único ente, que se atém aos entes na sua totalidade, que se relaciona com os entes em sua totalidade e, assim, consigo mesmo, ou seja, cujo comportamento se cumpre e planta a cada vez a partir de uma postura ou impostura, tò êthos é a postura, o porte do comportamento do homem frente à totalidade dos entes.

Heidegger, “Heráclito” Continuar lendo

MacIntyre – ética das virtudes

Because I understand the tradition of the virtues to have arisen within and to have been first adequately articulated in the Greek, especially the Athenian polis, and because I have stressed the ways in which that tradition flourished in the European middle ages, I have been accused of nostalgia and of idealizing the past. But there is, I think, not a trace of this in the text. What there is is an insistence on our need to learn from some aspects of the past, by understanding our contemporary selves and our contemporary moral relationships in the light afforded by a tradition that enables us to overcome the constraints on such self-knowledge that modernity, especially advanced modernity, imposes. Continuar lendo