Heidegger – sobre a linguagem

Pois as palavras e a linguagem não constituem cápsulas, em que as coisas se empacotam para o comércio de quem fala e escreve. É na palavra, é na linguagem, que as coisas chegam a ser e são. Por isso o abuso da linguagem no simples “bate-papo”, nos jargões e frases feitas nos faz perder a referência autêntica com as coisas.

Heidegger, GA40, p. 43-44. Trad. Carneiro Leão

Gilles-Gaston Granger: a essência da técnica

“A traveler accounts that, in the forests of Ecuador, indigenous tribes live without
contact with the civilized. One day, a hundred trucks, excavators, bulldozers working for an oil company opening roads, drilling wells, subverting the forest come to their domains”. Here’s how the Indians, stupefied, explain to each other the phenomenon: “new animals, they said, appeared. They domesticated men who obey and serve them as slaves. And white men feed and open them paths through the forest…”.

Gilles-Gaston Granger, “Reason”

Sartre – apologia à fenomenologia

Ele comia com os olhos. Esta frase e muitos outros signos marcam suficientemente a ilusão comum ao realismo e ao idealismo, segundo a qual conhecer é comer. A filosofia francesa, após cem anos de academicismo, ainda permanece nisto. (…) todos acreditamos que o Espírito-Aranha atraia as coisas para sua teia, cobria-as com uma baba branca e lentamente as deglutia,
reduzindo-as à sua própria substância. O que é uma mesa, um rochedo, uma casa? Um certo composto de “conteúdos de consciência”, uma ordem desses conteúdos.

SARTRE, Jean-Paul. “Une idée fondamentale de la phénoménologie de Husserl: l‟intentionnalité”, in: Sartre, La transcendance de l’Ego et autres textes phénoménologiques. Texte introduits et annotés par V. de Coorebyter. Paris: J. Vrin, 2003.

Alain Boutot – Heidegger e a técnica

Alguns viram na interpretação heideggeriana da modernidade uma condenação sem apelo equivalente a uma rejeição pura e simples da técnica. Este modo de ver repousa, na realidade, sobre um mal-entendido tenaz que o próprio Heidegger não cessou de denunciar. O discurso heideggeriano não é dirigido contra a técnica e não prega um qualquer retorno à Idade Média ou mesmo à Idade da Pedra, o que seria ridículo, mas tenta fundamentalmente discernir-lhe a essência. Heidegger aborda a técnica como «fenomenólogo», perspectivando-a no quadro da história do ser. Mais precisamente, visa preparar, ao evidenciar o perigo inerente à essência da técnica, o discernimento do que reclama desde sempre ser pensado, ou seja, o discernimento do próprio ser.

Alain Boutot, Introdução à Filosofia de Heidegger, 1993, p. 104-108

Heidegger – a mais digna de todas as questões

Todavia pela presente carta, trata-se unicamente de reconhecer o seguinte fato: que é precisamente o olhar em direção do reino da interpelação, quer dizer em direção do próprio da tecnologização do mundo, que mostra um caminho em direção ao próprio do homem, que distingue sua humanidade no sentido da reivindicação que se faz para isso através do ser. O homem é aquele que é necessitado para isso pela força da interpelação. O que lhe é próprio repousa sobre o fato que ele não se pertence a ele mesmo. Se seguimos a perspectiva que nos mostra o que reina no mundo técnico, ela nos concede a possibilidade de uma experiência determinante. A força da interpelação guarda, suficientemente meditada, a promessa em si que o homem pode alcançar ao próprio de sua determinação se se mantém próximo a uma estadia paciente na mais digna de todas as questões. Aquela que medita isto em que é guardado o próprio do que o pensamento ocidental-europeu tem se representado até então sob o nome “ser”.

Heidegger, GA11, “Carta à Kojima Takehico nos anos 1963-1965”

Heidegger – sobre o método cartesiano

[…] “Método” é agora o nome para o pro-cedimento assegurador e conquistador que se abate sobre o ente, a fim de assegurá-lo como objeto para o sujeito. E nesse sentido metafísico que o termo methodus é visado, quando Descartes apresenta no importante ensaio “Regulae ad directionem ingenii”, ensaio que só foi publicado depois de sua morte, a IV. Regula: “Necessaria est methodus ad rerutn veritatem investigandam.”

“Necessário (essencialmente necessário) é o método, a fim de farejar o rastro da verdade (certeza) do ente e de seguir esse rastro.”

Heidegger, “Nietzsche II”, p.101