Heidegger – o “saber” essencial é diferente da ciência

O “saber” essencial não domina sobre o que lhe é dado saber, mas é tocado por ele. Por exemplo, só para tomar um caso entre outros, cada “ciência” é um conhecimento de dominação, um sobrepujar e um ultrapassar, quando não simplesmente um passar por cima do ente. Isso se realiza no modo da objetivação. Em contrapartida, o saber essencial, a atenção, é um retroceder diante do ser. Num tal retroceder vemos e percebemos essencialmente mais, ou seja, algo totalmente diferente do produto do procedimento notável da ciência moderna. Pois esta última é sempre um assalto técnico ao ente e uma intervenção tendo em vista uma “orientação” ativa, “produtiva”, operosa e comercial.

Heidegger, Parmênides

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Denise Quintão – o homem é um ser do mundo

O homem é o único ser que, para existir, tem de conquistar sua própria existência, pois o existir humano não se dá num simples viver e morrer. Para o homem, a morte, assim como a vida, é sempre uma conquista. Pobre de mundo, o animal simplesmente morre, não espera pela morte, nem teme a morte, e por isso mesmo não procura superar a morte. Mas o homem é um ser do mundo, e por isso morre determinado pela conquista de sua própria existência, um empenho de superação da morte. A vida humana é mais do que sinais vitais; é sentido. Não há nada no homem que seja puramente animal. A animalidade no homem é absorvida e transformada pela sua humanidade.

Denise Quintão, “Ética e Responsabilidade na Vida”

Heidegger – a filosofia

[…] a “filosofia” não é uma mera ocupação profissional do pensamento com conceitos gerais, à qual alguém pudesse se dedicar ou também não, sem que com isso se desse e acontecesse qualquer coisa de essencial. Filosofia é o estar interpelado e desafiado pelo próprio ser. A filosofia já é em si mesma o modo fundamental de ser em que o homem no meio dos entes se comporta e atém ao ser. Os despossuídos e destituídos da filosofia são os “desprovidos de visão e per-cepção”. Eles se entregam e abandonam ao que a cada instante aparece e com igual velocidade também desaparece. Acham-se dedicados ao esvair-se e encobrir-se do ente, do que é e está sendo. Bebem além da medida da água do rio “Sem-cuidado”. São os descuidados, que se sentem bem na ausência de pensamento, que se esquivaram a todo apelo dos pensadores. Esses descuidados são aqueles que se alegram por terem deixado para trás e abandonado todo cuidado de pertencerem a um povo de poetas e pensadores. (Nos últimos dias foi anunciado e proclamado pelo ministério da propaganda que, de agora em diante, os alemães já não necessitam de “pensadores e poetas”, mas de “trigo e óleo”.)

Heidegger, “Parmênides”

Heidegger – information is not knowledge

But to know means to be able to stand in the truth. Truth is the openness of beings. To know is accordingly to be able to stand in the openness of beings, to stand up to it. Merely to have information, however wide-ranging it may be, is not to know. Even if this information is focused on what is practically most important through courses of study and examination requirements, it is not knowledge. Even if this information, cut back to the most compelling needs, is “close to life:’ its possession is not knowledge. One who carries such information around with him and has added a few practical tricks to it will still be at a loss and will necessarily bungle in the face of real reality, which is always different from what the philistine understands by closeness to life and closeness to reality. Why? Because he has no knowledge, since to know means to be able to learn.

Heidegger, “Introduction to Metaphysics”, p. 23 (Yale University Press)

Heidegger – sobre a linguagem

Pois as palavras e a linguagem não constituem cápsulas, em que as coisas se empacotam para o comércio de quem fala e escreve. É na palavra, é na linguagem, que as coisas chegam a ser e são. Por isso o abuso da linguagem no simples “bate-papo”, nos jargões e frases feitas nos faz perder a referência autêntica com as coisas.

Heidegger, GA40, p. 43-44. Trad. Carneiro Leão

Gilles-Gaston Granger: a essência da técnica

“A traveler accounts that, in the forests of Ecuador, indigenous tribes live without
contact with the civilized. One day, a hundred trucks, excavators, bulldozers working for an oil company opening roads, drilling wells, subverting the forest come to their domains”. Here’s how the Indians, stupefied, explain to each other the phenomenon: “new animals, they said, appeared. They domesticated men who obey and serve them as slaves. And white men feed and open them paths through the forest…”.

Gilles-Gaston Granger, “Reason”