Heidegger – a filosofia é inútil

[…] meditar significa despertar o sentido para o inútil. Num mundo para o qual não vale senão o imediatamente útil e que não procura mais que o crescimento das necessidades e do consumo, uma referência ao inútil fala sem dúvida, num primeiro momento, no vazio. […] as necessidades definem-se a partir daquilo que é tido por imediatamente útil. Que deve e que pode ainda o inútil face à preponderância do utilizável? Inútil, de maneira que nada de imediatamente prático pode ser feito, tal é o sentido das coisas. É por isso que a meditação que se aproxima do inútil não projecta qualquer utilização prática, e portanto o sentido das coisas é que se afigura como mais necessário. […] O inútil tem a sua grandeza própria e o seu poder determinante na sua maneira de ser: com ele nada se pode fazer.

HEIDEGGER, “Língua de Tradição e Língua Técnica”, p. 8-12

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Heidegger e a ciência

It is no accident that in a strict sense modern science’s self-critique is lacking today. It is not due to negligence or laziness on the part of the respective scientists. It is due to blindness determined by the destiny of the present age. This is where we get [the idea] that philosophy itself, insofar as it survives, is not lagging behind the sciences, but that it is lagging behind its own tradition. In inquisitive dialogue, philosophy is no longer able to put the matter of thinking itself into question.

 

Heidegger, “Zollikon Seminars”

Heidegger – lemos os gregos com olhos “romanos”

16807631_124057511449023_4589262984088955046_nUma consequência mais distante, mas de forma alguma indiferente, da latinização da cultura grega, e do renascimento latino da antiguidade é o fato de que, ainda hoje, vemos a cultura grega com olhos romanos, e isso não somente no interior da pesquisa histórica do mundo grego, mas sim – o que é mais decisivo – no diálogos histórico metafísico do mundo moderno com o dos antigos. A metafísica de Nietzsche, a quem gostamos de considerar como um moderno redescobridor da Grécia antiga, vê o “mundo” grego exclusivamente de modo romano, isto é, de um modo ao mesmo tempo moderno e não grego. Similarmente, pensamos ainda a polis grega e o “político” num compreensão totalmente não-grega. Pensamos o “político” como romanos, isto é, imperialmente. A essência da polis grega jamais será apreendida no círculo da visão do “político” entendido de modo romano. Tão logo voltamos nosso olhar para os âmbitos essenciais na sua simplicidade, os quais, para o historiógrafo, não têm naturalmente nenhuma consequência, pois não chamam atenção nem causam rumor – âmbitos nos quais não se dá nenhuma escapatória -, então, mas somente então, experimentamos que nossas representações fundamentais usuais, ou seja, as latinas, cristãs, modernas, falham miseravelmente em apreender a essência primordial da Grécia antiga.

Heidegger, “Parmenides” Continuar lendo

Volpi – if Aristotle were alive today

A respected scholar of ancient philosophy, Jonathan Barnes, once said-indeed wrote-that if Aristotle were alive today he would undoubtedly live in Oxford, taking a few side trips to Louvain perhaps. A no less respected Italian specialist in Greek philosophy retorted that, if Aristotle were to have lived in our century, he would have at least spent his vacations in Padua. Overworking the anachronism, I would add: had Aristotle lived in our century, he would not have lived in Oxford for the sake of discussion with Jonathan Barnes, nor would he have stayed over in Louvain or Padua; rather, he would have preferred philosophizing in the Black Forest with Heidegger.

Volpi, “Being and Time: A “Translation” of the Nicomachean Ethics? Continuar lendo

Sloterdijk – sobre o humano

A questão sobre a essência do ser humano não entra no rumo certo até que nos afastemos da mais velha, mais obstinada e mais perniciosa das práticas da metafísica europeia: definir o ser humano como animal rationale. Nessa interpretação da essência do homem, este continua a ser entendido como uma animalitas expandida por adições espirituais. Contra isso revolta-se a análise existencial-ontológica de Heidegger, pois, para ele, a essência do ser humano não pode jamais ser expressa em uma perspectiva zoológica ou biológica, mesmo que a ela se acresça regularmente um fator espiritual ou transcendente.

Peter Sloterdijk, “Regras para o parque humano” Continuar lendo

Dastur: Heidegger and Ethics

For Heidegger, “ontology” thus understood is always “practical,” always “engaged,” and thus bears an intrinsically ethical dimension. This is doubtless the reason Heidegger has not written on ethics: because he surely does not need “to add” it on to an ontology that would then itself be conceived only as a part of philosophy. Here it is implicit that he thinks Being in a way that is different from the tradition­ which identifies Being with substance. Heidegger, like Levinas, is critical of the Western tradition. His thought unfolds “beyond” or at the “end” of philosophy, as he clearly lets it be known after the “turn.”

Dastur, “Call of Conscience” Continuar lendo

Heidegger – sobre o homem

O terceiro título mencionado, episteme ethike, designa o entender-se com aquilo que pertence ao êthos. êthos significa, originariamente, morada, modo de ater-se a…. No título episteme ethike faz-se referência a êthos. Significa, pois, o ater-se do homem, o habitar, a “moradia” dos homens em meio à totalidade dos entes. O essencial no êthos, nesse ater-se, é o modo em que o homem se detém e comporta frente ao ente, e com isso se mantém e se deixa deter. O entender-se com o êthos, o saber do êthos, é a “ética”. […] O homem é, o homem mora em meio à totalidade dos entes sem constituir, porém, o seu meio no sentido de ser um fundamento de sustenção e intervenção sobre os entes. O homem está em meio aos homens, mas não é o meio. Tanto a episteme physike como a episteme ethike constituem um entender-se com a totalidade dos entes que se mostra para o homem, com a qual ele se comporta, na qual ele se atém e demora.

Heidegger, “Heráclito”, 1998, p. 218