Heidegger – sobre ser filósofo e o cuidado com as palavras

Como atenção ao apelo que o ser faz ao homem, a “filosofia” é primordialmente o cuidado do ser e nunca uma questão de “cultura” e conhecimento. Por isso é que alguém pode dispor de uma grande soma de conhecimentos eruditos sobre as doutrinas filosóficas e opiniões dos filósofos sem nunca ser “filósofo”, sem saber “filosofar”. Outros, por sua vez, podem ser tocados pelo apelo do ser, sem saber o que é nem responder ao apelo do ser em um e através de um pensamento correspondente.

Ao pensamento que pensa, pertence, sem dúvida, um saber e um cuidado com o sentido da reflexão e um esmero da palavra que sobrepuja essencialmente todas as exigências de mera exatidão científica.

Heidegger, GA54 Continuar lendo

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Deleuze – para que serve a Filosofia?

Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas.

Deleuze, em “Nietzsche e a Filosofia” Continuar lendo

Heidegger – a filosofia não tem utilidade

Philosophy is essentially untimely because it is one of those few things whose fate it remains never to be able to find a direct resonance in their own time, and never to be permitted to find such a resonance. Whenever this seemingly does take place, whenever a philosophy becomes fashion, either there is no actual philosophy or else philosophy is misinterpreted and, according to some intentions alien to it, misused for the needs of the day.

 

Heidegger, Introduction to Metaphysics, p.9 Continuar lendo

Luijpen – impossível pensar sem a tradição

Como filósofo sou uma pessoa, um eu, e meu filosofar só é legítimo sendo o meu filosofar. Toda pessoa, porém, acha-se inserta em uma história que não é pessoal, que o indivíduo mesmo não fez. Trata-se de uma inserção inevitável. Não posso, pois, começar a pensar do ponto zero, porque o que penso já foi pensado, e em tal pensamento fui acolhido. Sou levado pelo pensamento da tradição, pelo menos porque falo sua linguagem e me acho imbuído dos pensamentos encarnados nessa linguagem. Pensar sem linguagem é impossível; não menos impossível, pensar sem tradição.

Isso não quer dizer que o filósofo precise abandonar a pretensão de pensar pessoalmente. De maneira alguma. Ainda que levado pela história do pensamento, o filósofo é chamado a despertá-la para uma nova vida. Acontece isso ao se aprofundar nas obras dos que o precederam. Os filósofos do passado têm coisas importantes a dizer-nos.

William Luijpen

Foucault – quando o discurso filosófico perde o sentido

Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho.

Foucault, “A História da Sexualidade II”

Eugen Fink – Filosofia

“Filosofía”, en el sentido vago y corriente de la palabra, acontece doquiera el hombre cavila sobre sí, doquiera se queda consternado ante la incomprensibilidad de su estar-aquí, doquiera las preguntas por el sentido de la vida emergen desde su corazón acongojado y trémulo. De este modo se le ha cruzado la filosofía casi a cada hombre alguna vez – como un sobresalto que nos estremece de súbito, como una aflicción y melancolía al parecer sin fundamento, como pregunta inquieta, como una sombra oscura sobre nuestro paisaje vital. Alguna vez toca a cada quien, tiene muchos rostros y máscaras, conocidas e inquietantes, y tiene para cada uno una propia voz, con la cual lo llama”.

Eugen Fink, “Fenómenos fundamentales de la existencia humana”