Arendt – sobre o fazer e o agir

Ao contrário da fabricação, a ação jamais é possível no isolamento. Estar isolado é estar privado da capacidade de agir. A ação e o discurso necessitam tanto da circunvizinhança de outros quanto a fabricação necessita da circunvizinhança da natureza, da qual obtém matéria-prima, e do mundo, onde coloca o produto acabado. A fabricação é circundada pelo mundo e está em permanente contato com ele; a ação e o discurso são circundados pela teia de atos e palavras de outros homens, e estão em permanente contato com ela. O mito popular de um «homem forte» que, isolado dos outros, deve sua força ao fato de estar só, é mera superstição baseada na ilusão de que podemos «fazer» algo na esfera dos negócios humanos — «fazer» instituições ou leis, por exemplo, como fazemos mesas e cadeiras, ou fazer o homem «melhor» ou «pior».

Hannah Arendt, “A Condição Humana” Continuar lendo

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António Caeiro – praxis e ética no pensamento grego

Mas de todos os problemas postos, o maior resulta de há já muito termos perdido o contacto com o sentido essencial do prático tal como os Gregos o experimentavam espontaneamente. E desse sentido que dependem a possibilidade da sua caracterização, enquadramento e compreensão. Caracterizar o horizonte prático é caracterizar a situação específica em que o Humano se encontra. O sentido original do substantivo «práxis» é dificilmente vertido para português através de termos como «acção» ou «prática». O verbo «práttein» significa passar por, atravessar. Significa também estar sujeito ao acaso, ao feliz tanto quanto ao infeliz. Significa bem assim «levar a cabo», «realizar», «cumprir». Nesta conformidade, o horizonte prático é o espaço onde tem lugar aquilo por que se passa: as situações em que caímos e as situações que criamos. O Humano existe desprotegido num horizonte que o deixa necessariamente exposto aos reveses da fortuna, aos caprichos do acaso, aos golpes do destino, à adversidade em geral. O mundo em que vivemos, os outros que aí encontramos, nós próprios no que nos dá para fazer, tudo isto forma frentes provocadoras da acção. Mas a acção só acontece quando arranjamos um espaço de manobra para a levar a cabo de livre e espontânea vontade, de forma plenamente consciente.

Antonio Caiero, texto retirado do capítulo “Apresentação” de sua tradução da obra “Ética à Nicômaco” Continuar lendo