Heidegger – a mais digna de todas as questões

Todavia pela presente carta, trata-se unicamente de reconhecer o seguinte fato: que é precisamente o olhar em direção do reino da interpelação, quer dizer em direção do próprio da tecnologização do mundo, que mostra um caminho em direção ao próprio do homem, que distingue sua humanidade no sentido da reivindicação que se faz para isso através do ser. O homem é aquele que é necessitado para isso pela força da interpelação. O que lhe é próprio repousa sobre o fato que ele não se pertence a ele mesmo. Se seguimos a perspectiva que nos mostra o que reina no mundo técnico, ela nos concede a possibilidade de uma experiência determinante. A força da interpelação guarda, suficientemente meditada, a promessa em si que o homem pode alcançar ao próprio de sua determinação se se mantém próximo a uma estadia paciente na mais digna de todas as questões. Aquela que medita isto em que é guardado o próprio do que o pensamento ocidental-europeu tem se representado até então sob o nome “ser”.

Heidegger, GA11, “Carta à Kojima Takehico nos anos 1963-1965”

Rüdiger – o duplo esquecimento do ser

A obra [Ser e Tempo], de muita eficácia na sua dramaturgia, começa com uma espécie de prólogo no céu. Aparece Platão. Cita-se um trecho do diálogo Sofistas: “Pois obviamente há muito estais familiarizados com o que na verdade eu quis dizer usando a expressão ente (seiend): nós pensávamos um dia tê-la compreendido, agora porém estamos embaraçados”.

Esse embaraço, diz Heidegger, ainda existe, mas não o admitimos a nós mesmos. Ainda não sabemos o que pensamos ao dizer que algo é ente. O prólogo queixa-se contra um duplo esquecimento do ser. Esquecemos o que é ser e também esquecemos esse esquecer. E assim trata-se de renovar a indagação pelo sentido do ser; mas como esquecemos o esquecer, trata-se sobretudo de despertar de novo a compreensão para o sentido dessa pergunta.

Como convém a um prólogo, já no início alude-se ao ponto para onde tudo isso converge: a interpretação do tempo como o horizonte possível de qualquer compreensão do ser. O sentido do ser é tempo. Está revelado o tema, mas para torná-lo compreensível Heidegger não precisará apenas de todo esse livro, e sim do resto de sua vida.

Rüdiger Safranski, “Heidegger, um mestre da Alemanha”