Carneiro Leão – a tarefa do pensador

Em toda leitura e interpretação de um texto está em jogo a capacidade de pensar de quem lê e interpreta. “A filosofia não é uma doutrina. É uma atividade”, diz Wittgenstein, no Tractatus; a atividade de aprender e ensinar a pensar. A tarefa do pensador não é construir respostas nem formular teorias. Isto é coisa de cientista. A tarefa do pensador é examinar as irrupções das diversas respostas e teorias em seus respectivos pressupostos de sustentação.

Carneiro Leão, “Filosofia Grega”

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Carneiro Leão – a ditadura da razão

O que é a ditadura da razão? A ditadura da razão é exclusiva e excludente e consiste em montar um sistema universal de prestar contas e dar explicações evidentes e suficientes, coerentes e consistentes de tudo que é, de tudo que se conhece e de tudo que se faz, seja nas ações que se põem, seja nas atitudes que se tomam, seja nas omissões, que se praticam. Prestar conta e dar explicação está em arguir, consiste em argumentar, no sentido de oferecer, discursivamente, condições necessárias e suficientes de possibilidade e determinação, de controle e sustentação. Racionalidade não diz apenas a regra e o domínio da razão. Racionalidade diz sobretudo a razão, como regra e domínio de tudo. Para os fragmentos de Heráclito nos poderem levar até à atmosfera do pensamento, temos de nos dispor a violar a ditadura da razão e de nos descolar da discursividade da lógica. Mas para ficar com quê? de mãos vazias? ou com uma mão na frente e outra atrás? – Não! Em lugar de razão e lógica, aquela disposição e esta descolagem nos presenteiam com o vigor do Lógos: a dialética. A morada do pensador nunca pode ser de exclusão mas é sempre de inclusão. O pensamento acolhe no e pelo ordinário o extraordinário, vê o invisível no visível, é a disputa recíproca do que se exclui com o que se inclui. Os ditos do pensamento não se movem rígidos e inflexíveis, como a necessidade; não são “dicta-dura”, os ditos do pensamento fluem maleáveis e dóceis, como a possibilidade; são “dicta suavia”.

Carneiro Leão, “Filosofia Grega: uma introdução”

Charles Taylor – a razão instrumental

A primazia da razão instrumental também é evidente no prestígio e na aura que envolvem a tecnologia e nos faz acreditar que deveriamos buscar soluções tecnológicas mesmo quando se faz necessário algo muito diferente. Vemos isso com frequência na esfera política […]. Entretanto, também invade outros domínios, como a medicina. Patricia Benner argumentou em diversos trabalhos importantes que a abordagem tecnológica na medicina frequentemente deixou de lado o tipo de cuidado que envolve tratar o paciente como uma pessoa completa com uma história de vida, e não como lócus de um problema técnico. A sociedade e a comunidade médica não raro subestimam a contribuição das enfermeiras, que, com mais frequência do que os especialistas com conhecimento high-tech, oferecem esse cuidado sensível de maneira mais humana.

Charles Taylor, “A ética da autenticidade”

Alain de Libera – o “eu” na Modernidade

Subject and subjecthood are everywhere in early modern philosophy. Nietzsche’s criticism of the grammatische Gewöhnung is already to be found in the eighteenth century. Consider, for example, Catharine Trotter Cockburn’s criticisms of Isaac Watts. She criticizes Watts for ascribing to mere “logical ways of speaking” what he calls “our prejudices against allowing a power of thinking to subsist without a subject.” She replies to “this ingenious author” that “actions and abilities . . . seem unavoidably to imply some subject of them, some being, that exerts its powers in different ways of acting,” and then goes on to argue that “she does not find herself so prejudiced by logical or grammatical ways of speaking” when she says that she cannot “frame any idea of a power, without supposing some being, to which it belongs.”11 So far, so familiar. But can we trace Catherine Trotter’s plea for subject and subjecthood back any further? Can we trace it back to Descartes himself? To the scholastics? To Augustine? To Aristotle?

Alain de Libera, “When Did the Modern Subject Emerge”

Heidegger – a filosofia é inútil

[…] meditar significa despertar o sentido para o inútil. Num mundo para o qual não vale senão o imediatamente útil e que não procura mais que o crescimento das necessidades e do consumo, uma referência ao inútil fala sem dúvida, num primeiro momento, no vazio. […] as necessidades definem-se a partir daquilo que é tido por imediatamente útil. Que deve e que pode ainda o inútil face à preponderância do utilizável? Inútil, de maneira que nada de imediatamente prático pode ser feito, tal é o sentido das coisas. É por isso que a meditação que se aproxima do inútil não projecta qualquer utilização prática, e portanto o sentido das coisas é que se afigura como mais necessário. […] O inútil tem a sua grandeza própria e o seu poder determinante na sua maneira de ser: com ele nada se pode fazer.

HEIDEGGER, “Língua de Tradição e Língua Técnica”, p. 8-12

Heidegger e a ciência

It is no accident that in a strict sense modern science’s self-critique is lacking today. It is not due to negligence or laziness on the part of the respective scientists. It is due to blindness determined by the destiny of the present age. This is where we get [the idea] that philosophy itself, insofar as it survives, is not lagging behind the sciences, but that it is lagging behind its own tradition. In inquisitive dialogue, philosophy is no longer able to put the matter of thinking itself into question.

 

Heidegger, “Zollikon Seminars”