Ortega y Gasset – quem decide é o nosso caráter

jose-ortega-y-gasset“Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que de nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente predeterminada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, nos força… a eleger. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir. 

É, pois, falso dizer que na vida “decidem as circunstâncias”. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter.”

Ortega y Gasset, “Rebelião das Massas” (p.90)

Heidegger – primavera

The spring is the abrupt entry into the realm from which man and Being have already reached each other in their active nature, since both are mutually appropriated, extended as a gift, one to the other. Only the entry into the realm of this mutual appropriation determines and defines the experience of thinking.

What a curious leap, presumably yielding us the insight that we do not reside sufficiently as yet where in reality we already are. Where are we? In what constellation of Being and man?

Heidegger, “The Principe of Identity”

S. Agostinho – religião cristã

“Aquilo que hoje é chamado de ‘religião cristã’ já existia entre os antigos e nunca cessou de existir desde as origens do gênero humano, até o tempo em que o próprio Cristo veio e os homens começaram a chamar de ‘cristã’ a verdadeira religião que já existia anteriormente.”

S. Agostinho, “De Vera Religione” (X, 19)

Ortega y Gasset – a educação deficiente da Modernidade

“E, com efeito, o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século, porém muito mais simples. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século, não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna, mas não foi possível educá-las. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente, mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos; inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos, mas não o espírito. Por isto não querem nada com o espírito, e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos, sem problemas tradicionais e complexos.”

Ortega y Gasset, “Rebelião das Massas” (p.93)

Gérard Simon – sujeito x objeto

“Opseis (no plural) são as “vistas” que se toma do objeto; e quando se trata do olhar, todas as linhas de visada simultâneas que lhe oferecem o que ele vê. […] Há muito tempo entre os gregos luz e visão permaneceram indistintas uma da outra. Para Homero ou Hesíodo, e até em Ésquilo, os corpos celestes são dotados da vista do fato mesmo que espalham luz; o Sol olha de seus raios os mortais que ele ilumina. Da mesma maneira, opsis, a vista, designa ao mesmo tempo o aspecto disto que se vê, o fato de ver, o órgão da visão e o espectro de um morto ou a aparição de um deus que se dá a ver: a indistinção concerne portanto aqui isto que nós separamos em objetivo e subjetivo.”

 

GÉRARD SIMON, “Le regard, l’être et l’apparence” (p. 26-27)

 

Descartes – a supremacia das matemáticas

“Eis por que, talvez, daí nós não concluamos mal se dissermos que a Física, a Astronomia, a Medicina e todas as outras ciências dependentes da consideração das coisas compostas são muito duvidosas e incertas; mas que a Aritmética, a Geometria e as outras ciências desta natureza, que não tratam senão de coisas muito simples e muito gerais, sem cuidarem muito em se elas existem ou não na natureza, contêm alguma coisa de certo e indubitável. Pois, quer eu esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza.”

Descartes, “Meditações” (p.3-4)