Heidegger – o Dasein não “têm” propriedades, estas são apenas modos de “ser”

Heidegger descarta qualquer denominação do homem enquanto ser “racional”. Dizer que o homem é um “animal racional” é colocá-lo no mesmo nível de um ser-simplesmente-dado (present-at-hand: uma árvore, uma mesa, uma casa), pois atribuí-se uma “propriedade” ao Dasein. “Coisas” cujo “modo” de ser é simplesmente-dado precisam, para ser algo existente, de um “o-que”. Já o Dasein, enquanto única entidade cujo “ser” é uma questão, não.

“The essence of Dasein lies in its existence. Accordingly those characteristics which can be exhibited in this entity are not ‘properties’ present-at-hand of some entity which ‘looks’ so and so and is itself present-at-hand; they are in each case possible ways for it to be, and no more than that. All the Being-as-it-is [So-sein] which this entity possesses is primarily Being. So when we designate this entity with the term ‘Dasein’, we are expressing not its “what” (as if it were a table, house or tree) but its Being.”

Heidegger, “Being and time” (SZ, 42)

Heidegger – a história de Tales

«Conta-se, acerca de Tales, que teria caído num poço quando se ocupava com a esfera celeste e olhava para cima. Acerca disto, uma criada trácia, espirituosa e bonita, ter-se-ia rido e dito que ele queria, com tanta paixão, ser sabedor das coisas do céu, que lhe permaneciam escondidas as que se encontravam diante do seu nariz e sob os seus pés.»

Platão acrescentou ao relato desta história, a seguinte afirmação:

«O mesmo escárnio aplica-se a todos os que se ocupam da filosofia.»

A questão «que é uma coisa?» deve determinar-se como uma daquelas de que as criadas se riem. E uma verdadeira criada deve ter sempre qualquer coisa de que se possa rir.

De súbito, com a caracterização da questão acerca do que é uma coisa, aproximamo-nos do que seja a atitude própria da filosofia, que levanta uma tal questão. Filosofia é aquele modo de pensar, com o qual, essencialmente, nada se pode começar e acerca do qual as criadas necessariamente se riem.

Esta determinação conceptual da filosofia não é uma mera brincadeira, mas deve ser meditada. Oportunamente, faremos bem em nos recordarmos de que, no decurso do nosso trajeto, talvez nos aconteça cair num poço, de que não consigamos, durante muito tempo, encontrar o fundo.”

 

Heidegger, “O que é uma coisa?”

Raffoul – o fim do “sujeito”

This destitution of the subject would appear to be so radical – even excessive to some  – that they seem justified in condemning its aporetic or morally dangerous character (since, as we often read, the “absence” of the subject in Heidegger’s work makes ethics as such impossible).

Francois Raffoul, “Heidegger and the Subject”

Rüdiger – o duplo esquecimento do ser

A obra [Ser e Tempo], de muita eficácia na sua dramaturgia, começa com uma espécie de prólogo no céu. Aparece Platão. Cita-se um trecho do diálogo Sofistas: “Pois obviamente há muito estais familiarizados com o que na verdade eu quis dizer usando a expressão ente (seiend): nós pensávamos um dia tê-la compreendido, agora porém estamos embaraçados”.

Esse embaraço, diz Heidegger, ainda existe, mas não o admitimos a nós mesmos. Ainda não sabemos o que pensamos ao dizer que algo é ente. O prólogo queixa-se contra um duplo esquecimento do ser. Esquecemos o que é ser e também esquecemos esse esquecer. E assim trata-se de renovar a indagação pelo sentido do ser; mas como esquecemos o esquecer, trata-se sobretudo de despertar de novo a compreensão para o sentido dessa pergunta.

Como convém a um prólogo, já no início alude-se ao ponto para onde tudo isso converge: a interpretação do tempo como o horizonte possível de qualquer compreensão do ser. O sentido do ser é tempo. Está revelado o tema, mas para torná-lo compreensível Heidegger não precisará apenas de todo esse livro, e sim do resto de sua vida.

Rüdiger Safranski, “Heidegger, um mestre da Alemanha”

Goethe – sobre a “velocidade” do mundo moderno

Everything [ . . .] is now “ultra”, everything transcends . . . [überbieten], irresistibly, in thought as in action. No one knows himself any longer, no one grasps the element that sustains him and in which he functions [. . .]. Young people are stimulated too soon and
then torn along in the whirlpool of time; wealth and speed is what the world admires and what it strives for; trains, express mail, steamships and all sorts of communicative facilities are what the civilized world aims at in outpacing itself.

Goethe, em uma carta datada 6 de Junho de 1825,
para seu amigo Zelter

Heidegger – o Dasein como objeto prioritário de investigação

“If to interpret the meaning of being becomes our task, Dasein is not only the primary entity to be interrogated; it is also that entity which already comports itself, in its being, towards what we are asking about when we ask this question. But in that case the question of being is nothing other than the radicalization of an essential tendency-of-being which belongs to Dasein itself—the pre-ontological understanding of being.”

Heidegger, “Being and time”